Moda
São Paulo Fashion Week – Tendência Verão 2008/2009
JUNHO 2008

Reinaldo Lourenço - Mulheres bonecas


É difícil um estilista se superar a cada coleção. Mas Reinaldo Lourenço provou que não é impossível. Depois de um inverno rico em texturas e idéias, ele conseguiu criar uma coleção de verão ainda mais trabalhada, com vestidos feitos de tira de seda enroladas uma a uma em técnica de cestaria. Peças delicadíssimas e de tirar o fôlego. A inspiração veio das tradicionais porcelanas - Sèvres, Limoges e russa - e dos anos 1920, que aparecem em lindos vestidos-regata longos, com detalhes dourados (para lembrar o friso de ouro das porcelanas). A mulher pode parecer frágil a princípio, mas não se engane: Reinaldo é mestre em não derrapar na doçura. Peças com um quê masculino, como o colete que vira vestido e o chic terninho de crepe de chine também aparecem para balancear os toques femininos. Entre muito branco - "o novo preto", segundo Reinaldo - e tons de bege, destaque para o azul típico da porcelana inglesa.



Alexandre Herchcovitch Guerra e paz


Alexandre Herchcovitch faz uma coleção de verão inspirada em regimes totalitários e guerras. Mas não pense que o estilista criou peças pesadas em tons de verde militar. Seria muito óbvio (coisa que decididamente ele não é). A guerra de Herchcovitch vem implícita em vestidos levíssimos de georgette de seda, muitos com camadas generosas de babados, em tons de bege (cor tendência) ou sugar colors (lilás, verde-água, amarelinho). Tudo muito suave. A única referência clara ao tema são os martingales (tiras reguladoras com botões, muito usadas em uniformes militares), que aparecem sobre os ombros dos vestidos. Peças ícones, como os macaquinhos com leves balonês, os vestidinhos curtos e pregueados, as pelerines (que viraram vestidos) e as estampas de flores estavam lá, provando que, mesmo em situações de conflito, é possível criar algo belo.



Água de Coco
Balneário de luxo

A Àgua de Coco viajou para longe no verão 2009. Não foi no Rio ou nas praias do Nordeste que a estilista Liana Thomaz buscou inspiração. O destino escolhido por ela tem as águas azuis do Mediterrâneo como pano de fundo. Creta, Santorini, Ibiza e Saint-Tropez deram estampas e cores aos biquínis e maiôs da coleção: casas típicas das vilas, barcos e palmeiras (que parecem pintados a mão) dividiram atenção com tons de verde, roxo e areia (uma ótima sacada). Tudo bem chic e para momentos em que o sol não está à pino, já que os drapeados, enrolados e decotes de um ombro podem ser (e são) bem glamourosos, mas não favorecem nenhuma sessão de bronzeamento.


Isabela Capeto
Auto-retrato em um vestido bordado

Neste verão, a estilista embarca novamente para a terra de Frida Kahlo e cria uma coleção extremamente rica em detalhes, com estampas que remetem aos típicos azulejos mexicanos, medalhinhas bordadas em saias e vestidos de tule, flores estampadas. Tudo delicado e com um shape bem 1970 - as calças de piquet com boca larga e bordados são a melhor opção para o jeans de sempre. É impressionante ver como Isabela trabalha minuciosamente cada peça, em um trabalho feito a mão que consome horas e exige olhar e habilidade apurada. Miçangas, dentes dourados, paetês de metal, casinha de abelha, babados, sianinhas. São inúmeros os recursos utilizados por ela para transformar simples camisas em itens de luxo - o luxo aqui é justamente esse cuidado artesanal, cada vez mais raro na vida moderna. As roupas de Isabela são máxi, cheias de vida e, de certa maneira, de nostalgia.



Ronaldo Fraga
Salve o São Francisco!

Não, não há conotação política nem protesto ecologicamente fashion. “Mas a escolha da roupa é política”, afirma o estilista mineiro que a partir de uma inspiração linda, colhida na beira do Velho Chico, honrou sua importância sem demagogia. É ele, Ronaldo Fraga, o estilista que mais sabe colorir o Brasil em todas as suas nuances. No ritmo do cantar dos pássaros e com viseiras franjadas como as penas das aves que freqüentam as margens do Rio São Francisco, mulheres-peixes desfilam vestidos amplos, malemolentes, com estampas tropicais, bordados incríveis, recortes orgânicos que revelam um mundo de lendas, de conflitos. “O povo de lá borda a alma do rio”, conta Fraga que, por entre bacias cheias de sal grosso, exibe uma paisagem humana deliciosamente única. Laranjas atrevidos, verdes-água transparentes, azuis de todas as profundidades se misturam e se aconchegam. Tudo é muito confortável, bordado, trabalhado. Detalhes, detalhes e detalhes. O casamento de céu, de mar, de terra. O jeans, os peixes e a beleza da terra.




André Lima - Show de dobraduras


Um exagero sem excesso. Uma nova assimetria. Como explicar a coleção de verão de André Lima? Roupas que desejam liberdade total. Peças que pretendem sair do corpo e voar. Os vestidos longos de cetim, tafetá ou jacquard perdem o volume e ganham cortes enviesados e caimento mais seco. Aparecem em cores lisas! Preto, branco, azul acinzentado, lilás, amarelinho... que às vezes se misturam em irreverentes combinações. Os curtos grudam no corpo e se enfeitam com ousadia. Surgem até maiôs! Laços, flores, trançados pousam sobre tubinhos tomara-que-caia como dobraduras gigantes contrastando com fileiras de pequenos botões cobertos. Os modelos ganham asas, bicos, pontas. O estilista não abandonou de todo as estampas. Brinca com o pop, se espalha no jogo de cores e capricha na geometria. Uma arquitetura muito chic.



Pedro Lourenço
Quem viver verá

Pedro Lourenço sempre provoca um rebuliço entre os fashionistas. Nesse domingo, penúltimo dia de Fashion Week, ele abriu o desfile com os melhores looks: vestidos de organza que aliavam o volume das formas descoladas do corpo (quase casulos) à leveza de incontáveis lâminas esvoaçantes. O resultado lembrava casacos de pele. Mas o melhor, nas palavras do próprio estilista, é que nenhum animal morreu para que sua coleção fosse criada. As peças mais estruturadas, resultado da dublagem do neoprene que ainda levava aplicações de tecidos nobres, ficaram menos interessantes. Um pouco duras demais (como o vestido ampulheta) e talvez muito inspiradas na Balenciaga de Nicolas Ghesquière. De toda a forma, o show reflete o amadurecimento de Pedro e promete experiências luxuosas no futuro.



Glória Coelho
Chic ao máximo


Gloria reduziu ao mínimo seus tradicionais excessos de fitas, bordados e materiais inusitados. O resultado? Pura poesia fashion. Sua mulher começou sóbria, livre de volumes. Vestidos curtos que misturavam cetim e organza. Looks de paletozinhos + shorts de organza que lembravam underwear masculino. Jaquetas de sarja que, ao invés dos ombros pontudos da década de oitenta, tão em alta por aqui, tinham volumes quase bufantes. Ultrafemininos! Calças de alfaiataria com jeito de sarouel desenhavam novos e elegantérrimos smokings. Chic, chic, chic! Muitos vestidos, agora mais compridos e com mais babados. Sobrepostos ora a bodies ora a mangas de paetês, eles tiveram seu melhor momento na mistura de branco com cobre. Gloria fechou seu show com música clássica. Seu verão 2009, como a música de encerramento, deverá ter vida longa, longa... Bravo!



Maria Garcia
Para moças de fino trato (ou quase)

Coney Island, canção de Lou Reed e paraíso decadente ao norte da cidade de Nova York, foi o ponto de partida para a coleção de estréia da Maria Garcia no SPFW. Com cores suaves – rosa-bebê, verde água, creme, pontuadas por marinho, preto e ocre –, Camila Cutolo, estilista da marca, deu vida a uma moça de fino trato com um je ne sais quois ... Uma atitude ligeiramente underground, mas chic. Os vestidos eram curtos, mas sem exageros. As calças vinham na altura do tornozelo e com a boca estreita. Shortinhos e saias que nada tinham de adolescentes eram uma graça. Estampas de barcos, sobreposição de listras e degradês. Tudo era muito delicado e quase uma preparação para a mulher que um dia vai usar Huis Clos. Os acessórios de cabelo merecem menção especial. Eram lindos de morrer – discos cobertos de pérolas, cristais e outros de penas que lembravam o pássaro usado por Carrie, em Sex and The City . Para ir buscar assim que chegar na loja!





Colcci - That´s seventies show

Gisele Bündchen na passarela é sempre um acontecimento. Modelos à parte, a Colcci conseguiu fazer uma coleção mais bem resolvida do que a anterior. A maioria dos looks era composta por jeans em lavagens claras (em todas as variações: calça, jardineira, saia, shorts) + t-shirts ou tops tie-dye e batik (alguns ainda eram bordados). Leves e com um perfume bem setentinha, como o verão pede para ser, eles devem agradar em cheio as clientes da marca. Para as noites quentes, minivestidos com volume (saias de tutu foram usadas no forro) prometem cumprir bem a função de novos cocktail dresses – só para as bem novinhas! Tingidos, com detalhes de rendas, transparências e muitas flores, eles eram quase rococós. Camisas listradas, sandálias de couro cru e alguns chapéus de palha (juntos, formavam os looks mais street e usáveis) completaram o desfile.



Priscila Darolt
Perfume de verão

Uma caixinha de música, uma sala perfumada e uma bailarina no cenário. Que grata surpresa! Priscila está mais delicada, mais leve e sem derrapar numa moda por demais comercial. Seu verão dança entre saias curtas de muitas pregas, terninhos de short + paletozinhos de mangas três-quartos e vestidos sequinhos. Todos muito bem estruturados em tecidos pesados, como jacquard e piquet de algodão que ficam especialmente charmosos graças ao bordado que lembra tapeçaria. A mistura de cores é elegante com um toque retrô e mistura azul com marrom e vinho com vermelho e ocre. Chic como o quê!



Carlota Joakina
Rica e moderna

Carlota Joakina, segunda marca da estilista Gloria Coelho, criou uma coleção de verão repleta de peças moderninhas e fáceis de usar, aparentemente despretensiosas, mas que revelam detalhes luxuosos: laços enormes aqui, madrepérolas acolá, um vinil reluzente no meio e uma boa seda para fechar. A silhueta é seca e simples (tubos, shortinhos, chemisies), mas esses pequenos detalhes + uma boa cartela de cores (coral, azul céu, anis, carbono, verde hera, cinza etc) deixa tudo mais desejável e fresco. As melhores peças são as feita em tricô bicolor, como os microshortinhos com blusa, e no tricoline - os desdobramentos da camisaria masculina são bem bacanas. Já as malhas usadas com Havainas e polaina dão uma sensação de déjà vu. Destaque para as sandálias altas e fechadas no tornozelo que prometem ser hits do próximo verão.



Vide Bula
Romance hippie

Nem parecia a Vide Bula. Na volta ao SPFW, depois de saltar uma edição, a marca de jeanswear abandonou as imagens pesadas com inspiração oitententinha por uma moda quase bucólica. Com colares de margaridas naturais e flores nos cabelos, as modelos iam e vinham descalças ou com sandálias rasteirinhas e looks bem clarinhos e leves. Vestidos-camiseta, bem largos e longos, feitos de uma boa mistura de malha + vichy + xadrez abriram o desfile e despertaram o desejo de correr para uma casa de campo e ficar com os pés no chão. A coleção continuou com peças tingidas de café – mais hippie e delicado, impossível.


Lino Villaventura
Geometria (nada) básica

O verão de Lino Villaventura é pautado por formas geométricas, muito patchwork e cores primárias, que deixam tudo com um ar lúdico, quase infantil. A base dos vestidos é feita pedaço a pedaço – um quadrado de tecido + um círculo + um retângulo. Tudo depois ganha aspecto retorcido graças ao trabalho de nervuras (especialidade de Lino, aliás), com linhas matizadas, que faz o tecido (todos nobres: tafetá, seda, tule, palha indiana, crepe chanel) lembrar papel machê. Como pouco detalhe é bobagem (tratando-se de Lino), as peças ficam ainda mais ricas: crochês, bordados, cristais Swarovski bordados a mão. As estampas são envelhecidas para conquistar aspecto de velhinhas, desgastadas pelo tempo e, algumas peças, têm ar oriental, com mangas arredondadas. Para completar, leggings de tule irisado com aramados circulares nos joelhos, os mesmos usados nos olhos, que criaram um efeito meio robô, meio faz de conta.


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Fonte: Assessoria Foto: Fotosite Data: Junho 2008