Crônicas
Palavras pensadas
Staples Center - Ginásio onde ocorreu homenagem póstuma a Michael Jackson

Reis e súditos no planeta mídia
por: Márcia Mariano

Julho foi marcado por duas manifestações de devoção dos súditos aos “reis” da música. No dia 7, no ginásio Staples Center, em Los Angeles, 17 mil pessoas assistiram ao show-funeral do “Rei do Pop”, Michael Jackson, morto no dia 25 de junho. No dia 11 de julho, em pleno estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, 65 mil pessoas comemoraram os 50 anos de carreira do “Rei” Roberto Carlos.

Apesar da coincidência do mês, as duas homenagens não têm nada em comum, a não ser pela veneração dos fãs por seus ídolos, demonstrando o quanto a música é capaz de agregar pessoas, seja pela dor, seja pelo amor. As diferenças entre os dois “reis” vão além dos países de origem, e do momento histórico que resultaram nesta celebração coletiva.

A homenagem póstuma a Michael Jackson ganhou dimensões planetárias por motivo óbvio. O rei do pop nasceu e viveu nos Estados Unidos, país que ainda tem grande influencia cultural sobre o Ocidente.

Roberto Carlos comemora 50 anos de carreira, no Maracanã.
Foto Divulgação, TV Globo/Rafael França
A consagração de Roberto Carlos, senão contagiou o mundo, certamente parou boa parte do Brasil que, por duas horas e meia, ficou ligado na tela da Globo.

Nos dois eventos, pudemos constatar o avassalador poder da mídia, que ganhou mais força, após os avanços tecnológicos das comunicações em todo o mundo.

Todo o artista, como disse certa vez uma canção de Milton Nascimento, “deve ir onde o povo está”. Mas hoje, o público não se contenta apenas em assistir o show ou ouvir a música. Ele quer seguir, tocar, interagir e nesta perseguição implacável, conta com o apoio da mídia, que o instiga e o manipula para que exija o máximo do seu ídolo.

É nesta hora que a personalidade, a força espiritual e o caráter do artista são postos à prova. Ele necessita, sim, da exposição, mas não pode sucumbir a ela.

Voltando aos dois “reis”, Roberto Carlos tem 68 anos, 50 de carreira artística. Michael Jackson tinha 51 de idade e 45 de carreira. Ambos começaram nos áureos anos 60. Um jovem, o outro ainda menino. Ambos vieram de famílias humildes e mudaram suas vidas graças ao talento para a música. Um começou com gênero romântico, depois aderiu a um estilo eclético que ia do soul ao break ; do rock ao hip-hop. O outro flertou com bossa-nova, depois com rock e consagrou-se com melodias românticas.

Ambos conquistaram admiradores pela versatilidade de suas músicas e pela dedicação com que se entregavam ao trabalho. Mas, existe uma diferença entre eles que eu considero crucial: o trato com a mídia. Enquanto Michael fazia de tudo para aparecer, Roberto praticamente foge dela. A vida de Michael era um livro aberto, a de Roberto sequer foi autorizada em biografia. A mãe de Roberto é idolatrada pelo filho, o pai de Michael foi odiado pelo seu herdeiro mais famoso.

Estas diferenças talvez tenham sido determinantes para traçar o caminho dos dois “reis” no universo da fama e a sua maneira de lidar com a mídia, cujos tentáculos invisíveis, são capazes de construir e destruir mitos, com a mesma velocidade.

Por Marcia Mariano Fotos:Divulgação Data: 12 julho 2009