Crônicas
Palavras pensadas
Marina e Karina no Aprendiz Universitário 6

Marina, Karina e Margaret
Por Márcia Mariano


Não curto reality show porque a mim não interessa a vida privada dos outros, mas nesta semanaà noite, porém, fui pega de surpresa por este fenômeno de mídia!

Depois de ler um livro, fui para sala. Zapeando os canais em busca de algo para ver antes da chegada do sono, me deparei com a figura hipnótica de Roberto Justus apresentando o Aprendiz Universitário 6, em pleno Memorial da América Latina.

Karina, 25 anos e Marina , 20, disputavam um prêmio de R$ 1 milhão. As duas estavam “tecnicamente empatadas”, mesmo depois da prova final, quando Karina superou a concorrente em arrecadação de donativos e simpatia. Confiante, tentava convencer o público de que a vitória se consegue com garra e espírito de equipe. Marina, cujo olhar parecia mais gélido do que o de Justus, se esforçava para mostrar equilíbrio. “Não gosto de perder”.

A caixa
Como estava difícil demitir, Justus partiu para um teste. Numa tela ao fundo do palco surgiu a primeira imagem: uma caixa fechada e a mesma pergunta às duas: O que você acha que tem dentro desta caixa? Karina disse: “desejo” - algo a ser descoberto e conquistado. Aplausos! Eu, do sofá, não bati palmas, mas não troquei de canal. Em seguida, Marina fixou a caixa e respondeu: “oportunidade” – a chance de realizar o sonho da minha vida. Palmas também, mas contidas. Virtuosidade versus Impetuosidade. Será que a platéia encarou desta forma? Justus mostrou-se levemente ansioso e eu fiquei confusa. Além da boa formação acadêmica, que qualidades o jovem de hoje precisa ter para entrar no sonhado mundo corporativo? Para aí....ali estavam duas mulheres, ou melhor, duas jovens ambiciosas e brilhantes. Mas isso é um mero detalhe. O mundo corporativo, tal como é, não faz distinção entre tailleur e terno. O jogo continuava empatado.

Dama de ferro
Segunda imagem na tela. Quatro mulheres: Ophra Winfrey, Mulher Maravilha, Madonna e Margaret Thatcher. Esta última, embora emblemática na foto, não foi reconhecida pelas jovens. Justus se espantou. Como não conhecem a dama de ferro ?
Em seguida, a pergunta: Com quem você se identifica? Marina, desta vez, primeiro, respondeu sem pestanejar: Margareth Tatcher. Karina, um pouco hesitante, acompanhou a resposta da rival. A dama de ferro , que saiu de cena há 20 anos, ainda é exemplo para as mulheres que almejam o poder. As duas apontaram Thatcher, mas foi Marina quem se aproximou dela. “Não gosto de perder”. De fato, “um líder é alguém que sabe o que quer alcançar e consegue comunicá-lo”, disse certa vez a ex-ministra britânica.

Xeque-mate
Como o jogo continuava empatado e já se aproximava da meia-noite, a decisão precisava ser tomada por Justus, já que nem os conselheiros conseguiram eliminar Karina ou Marina. O dono do programa então tirou a carta da manga. Pediu para que ambas justificassem porque ele deveria contratar apenas uma delas.

Visivelmente nervosa Karina deixou de lado a formalidade e reagiu como qualquer jovem da sua idade, “agora pegou pesado”. De novo, cativou a platéia, porém selou seu destino, ao justificar que Marina era “brilhante”, mas sempre reagia com irritação quando perdia uma tarefa. Ela ainda aconselhou a rival a valorizar o trabalho em equipe e aprender com os erros.

Roberto Justus se voltou para Marina e fez a mesma pergunta. A jovem de 20 anos, antes de destacar as qualidades da oponente, a quem chamou de “líder”, frisou que não gostava mesmo de perder e que ninguém entra no jogo para ser derrotado. Por fim, arrematou a questão com uma resposta objetiva, cujo raciocínio é o seguinte: Karina consegue liderar sim, se tiver uma equipe. Marina é líder de si mesma. Marina venceu.

Se Margaret Thatcher estivesse sentada ao meu lado no sofá assistindo o Aprendiz 6, teria repetido uma de suas frases mais famosas: “Quando se concede à mulher a igualdade com o homem, ela torna-se superior a ele.”
Por Márcia Mariano Foto: Divulgação Data: 28 Maio 2009