Crônicas
Palavras pensadas

Desfile da Unidos da Tijuca, vice-campeã do Carnaval 2011.
O Filho da Noite anda por aí
Por Márcia Mariano

A genialidade de Paulo Barros, carnavalesco da escola de samba da Unidos da Tijuca, mais uma vez surpreendeu a Avenida Sapucaí, no Carnaval do Rio de Janeiro 2011. Aliás, porque não dizer, o mundo, já que o “maior espetáculo da terra” foi transmitido para mais de 100 países, via satélite. Seu enredo "Esta noite levarei tua alma" – de gosto duvidoso para alguns, mas de beleza plástica impressionante em fantasias e carros alegóricos – ousou em colocar na avenida um tema mórbido. No abre-alas, Caronte, o Filho da Noite, o barqueiro macabro da mitologia grega que levava as almas para o mundo dos mortos, saudava a multidão. E no final do desfile, foliões metidos em caixões de papelão, encerravam o cortejo irreverente de Barros. No meio disso tudo, doses de ufanismo e redenção ao cinema hollywoodiano , um tanto exageradas.

Mas, espera aí... Carnaval é alegria, é cor, é brilho, é luz, defendem os puristas. Está certo, porém se a festa é pagã e libertária, como definem os especialistas no tema, a extravagância em sua essência deve ser mostrada, mesmo que tingida de preto, como na comissão de frente da escola tijucana.

E se o Carnaval serve também para refletirmos sobre o tempo em que vivemos, temos que admitir que a atmosfera está mais para cinza do que para azul. Desde 2010, o mundo vem assistindo, alarmado, as demonstrações de descontentamento da Natureza Suprema. Terremotos, enchentes, nevascas, vulcões têm sacudindo o planeta com mais intensidade, levando milhares de almas para os braços do “filho da noite”.
Caronte o Filho da Noite na mitologia grega.

Haiti, Chile, Austrália, Brasil e agora o Japão sofreram perdas imensuráveis provocadas por desastres naturais.

E tudo mostrado ao vivo e em cores, pela tecnologia em tempo real, num desfile de imagens impactantes, que nada tem de fantasia.

Que tal pensar sobre isto?

Por Marcia Mariano Fotos:Divulgação Data: F evereiro 2011