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“Um rio de gente na boca da noite sentindo um gosto de sol” Por: Márcia Mariano
A minha emoção foi tão grande ao ver as imagens do levante popular no milenar Egito que fiquei sem ideia de título para dar a este texto. Resolvi juntar as fotos do 11 de Fevereiro com as frases de duas letras de um dos discos mais belos já feitos no Brasil: Clube da Esquina. Prestes a completar 40 anos, ou seja, 10 a mais que os anos de ditadura que o povo egípcio suportou, este clube foi formado por jovens, assim como aqueles que estavam na praça. E aqueles, assim com estes, sonhavam em libertar o país da mão de ferro. Milton Nascimento, Lo Borges e Fernando Brant eram talentosos poetas de 20 e poucos anos que talvez não tivessem coragem ou vocação para saírem da esquina e marcharem por uma revolução. Mas, foi na esquina, empunhando violão e não armas, que escreveram as canções que ajudaram a despertar consciências. E era uma época em que para dizer algo como “vamos à luta, só depende de nós mesmos!” tinha de se usar figuras de linguagem: “ e basta contar com um passo, e basta contar consigo que a chama não tem pavio”. Numa época em que não havia telefone celular e nem câmera digital para trazer o subterrâneo à luz do dia em escala planetária. Numa época em que qualquer reunião na esquina era uma conspiração e que não se contava com redes sociais para nos garantir o anonimato. Enfim, ontem, século 20, hoje século 21. Clube da Esquina foi lançado em 1972. Foi um dos primeiros LPs que comprei em 1984, quando acabara de sair da faculdade e, como tantos jovens da minha geração, sonhava com liberdade e planejava ir à Passeata. Como não tinha internet para nos mobilizar, resolvemos marcar num bar da praça. Embalada com um walkman Sony ouvia a fita cassete de Clube da Esquina, feito uma década antes, quando na minha ingênua adolescência assistia Vila Sésamo, e nada entedia o que os moços de Minas queriam dizer com “esquina mais de 1 milhão quero ver gente.... gente... gente”. Após ver as imagens impactantes do povo, vindas de tão longe, e que nos chegaram imediatamente, graças à tecnologia, eu quis ouvir Clube da Esquina desta vez, claro, no meu MP3 da Sony. Não há mais o que dizer além da profética: “E sonhos não envelhecem”. | |||||||||