|
||||||
A beleza nua e crua por Marcia Mariano Pessoas comuns, como eu, não conseguem expressar outro sentimento que não seja repulsa ou compaixão, diante da crueldade, da violência ou da injustiça. Mas os artistas são seres especiais. Só eles têm a capacidade quase transcendental de tocar fundo em nossa alma, sem nos dizer uma única palavra. É o caso dos pintores. No silêncio absoluto de suas telas, nos instigam, nos provocam e nos encantam. Adepta da comunicação pelas letras que sou, e sem muita intimidade com o mundo das artes, confesso, tenho dificuldade para ver significado no abstrato, no surreal ou no grotesco. Minha relação com a arte costuma ser impulsiva. Não fico preocupada em “querer entender o que o artista quer dizer”. Apenas contemplo. Porém, algo muito diferente aconteceu numa agradável tarde de outono, do dia 5 de junho.
Ainda bem que estava acompanhada do amigo Emerson que, aliás, foi quem me convidou para a mostra, pois tendo vivido em Londres por alguns anos, sabia sobre o trabalho de Paula Rego na Europa. Porém, nem ele esperava tanta surpresa! Ao entrarmos nas salas da Pinacoteca de São Paulo, fomos tomados de assalto pelo impacto visual das obras Enquanto observávamos as figuras assustadoras e ao mesmo tempo lúdicas, desenrolando seus dramas em cada cena, ouvíamos o burburinho das pessoas. Constritas, algumas pareciam chocadas ao ver bailarinas com fisionomias masculinas vestidas de tule negro; mulheres descabeladas e submissas; jovens abortando renegados; velhas nuas na penumbra e bêbados brindando a devassidão. Uma senhora chegou a comentar baixinho. “Que horror! Isso é arte?”. Talvez não saibam que os modernistas e os contemporâneos há muito evitam associar Beleza e Arte, afinal o belo também pode ser amargo. Em se tratando do trabalho de Paula Rego, isto é explicito. Naquela sucessão de figuras grotescas e desalinhadas - que na minha modéstia opinião pode ser simbolizada pelo impactante Mulher-Cão, de 1994 - está uma clara denúncia.
Porém, se olharmos atentamente, é possível conectá-los ao caos da nossa civilização. É esta magnífica sutileza que torna o trabalho de Paula Rego tão singular. Sua primeira exposição individual foi em 1981, em Londres, na Air Gallery. A partir daí, ganhou projeção internacional com apresentações em Nova York , na Bienal de Paris e em várias outras cidades européias. Que bom ter tido a oportunidade de ver, no Brasil, o reverso da beleza na obra desta corajosa artista contemporânea. | ||||||