Depois de As Bienais, inaugurada em setembro do ano passado, a
Galeria Bergamin apresenta agora a exposição Através.
Com curadoria de Lisette Lagnado, a mostra reúne 23 obras
de 15 destacados artistas de
estilo construtivo,
cuja formação
se dá nos anos 50.
A exposição busca esclarecer
um mal-entendido que continua acompanhando o construtivismo, a
despeito dos escritos teóricos de seus participantes. Isto é:
o artista “construtor” - como Hélio Oiticica
chamava essa vertente que podia abarcar vários “ismos” -
não é necessariamente um artista geométrico
e muito menos “formalista”. “
A expressão ‘vontade
construtiva´, assim como os artistas russos se referem ao
construtivismo do início dos anos 20, evocava um ideário
social de ‘caracterização cultural´ e
não apenas o ascetismo de um movimento esteticista marcado
por um rigor geométrico como ficou consagrado”,
explica a curadora.
Um outro objetivo desta exposição
consiste em rastrear como desponta a questão do movimento
físico no horizonte
da arte. A partir dos anos 50, começou a surgir uma consciência
de que o espaço é repressor e de que era necessário
proporcionar ao espectador uma fruição ativa. Um
Objeto Ativo (1959) de Willys de Castro já deixa claro que
o artista não se satisfaz mais com a dimensão do
plano. Podendo ser manipulado, O Bicho (1960) de Lygia Clark aparece
como o momento em que a escultura elimina a distância entre
sujeito e objeto. “
As obras reunidas nessa mostra sinalizam
a busca pelo movimento, seja da obra ou do espectador, e constituem
a etapa logo anterior ao ingresso da participação
social na arte”, declara Lisette Lagnado. Segundo a
curadora, esta exposição mostra como a geometria foi um instrumento
que preparou o movimento e este, por sua vez, desencadeou um processo
de ativação do público, até então
restrito a uma contemplação pura.
Lygia Pape, que
faleceu o ano passado no Rio de Janeiro, ocupa o salão principal da galeria (10x10m), com a T-teia 1-C
(1979), trama de fios dourados formando uma rede em escala arquitetônica.
Esta iniciativa faz parte de um esforço já em andamento
de reconhecimento da trajetória de uma artista que foi protagonista
do período Neoconcreto e dividiu parcerias com importantes
integrantes do grupo.
A
T-teia 1-C é um ambiente sensorial e ótico que
dá destaque à questão da mobilidade do espectador.
Do mesmo modo, as peças cinéticas de Abraham Palatnik,
Julio Le Parc e León Ferrari permitem fazer a passagem para
um espaço vibrátil, em que esta mobilidade revela
aspectos sempre cambiantes da obra. As pesquisas de Waldemar Cordeiro
o levarão a ser considerado o pioneiro da arte ligada
a novas tecnologias (o computador).
A mostra não tem caráter museológico nem
a pretensão de exaurir as pesquisas artísticas em
torno da questão do tempo no espaço. Trata-se apenas
de evidenciar como movimento e ritmo estão prenunciados
em algumas obras (como as de Ivan Serpa), mesmo que ainda de modo
virtual. Raymundo Colares é um caso exemplar: suas faixas
geométricas, freqüentemente fragmentadas, aludem à velocidade
urbana.
O uso do acrílico na maior parte das obras de Mira Schendel
traduz sua busca permanente em fazer coincidir o verso e a frente,
sem hierarquia de leitura ou valor. O termo “Através” foi
escolhido exatamente nesse sentido.
As inclusões de Tenreiro (conhecido designer de móveis)
e do arquiteto Paulo Mendes da Rocha correspondem à necessidade
de mostrar o contexto da arte no seu sentido mais amplo, abrangendo
sua extensão na vida cotidiana. Alfredo Volpi insere-se
como um caso ímpar de composição com construção.
A maioria dos artistas desta mostra teve uma prática que
permitiu uma inserção criativa na sociedade industrial
(na criação de logotipos, padronagens têxteis,
cartazes etc.).
“
É importante ressaltar que a exposição
traz nomes ainda pouco pesquisados em nossa teoria estética
(Aluísio Carvão, entre outros
), tentando
romper com a hegemonia crítica que se estabeleceu recentemente tanto
no plano nacional como internacional”, esclarece a
curadora.
Lisette
Lagnado é doutora em Filosofia pela Universidade
de São Paulo, crítica de arte e curadora independente.
Iniciou sua vida profissional como editora das revistas Arte em
São Paulo e Galeria. Em seguida, trabalhou um ano, entre
1990 e 1991, como repórter de artes plásticas para
a Folha de S. Paulo. Sua primeira curadoria, “A presença
do readymade – 80 anos”, no Museu de Arte Contemporânea
da USP, ganhou o Prêmio APCA de Melhor exposição
do Ano (1993). Fundou o Projeto Leonilson para a catalogação
da obra do artista logo após a sua morte. Em 1996, participou
do mapeamento territorial “Antarctica Artes com a Folha”,
que revelou importantes talentos como Marepe e Rivane Neuenschwander.
Em 1999, realizou a mostra em homenagem a Iberê Camargo para
a II Bienal do Mercosul. A partir de 2001, é convidada a
editar a seção “em obras” para a revista
eletrônica Trópico (www.uol.com.br/tropico). Foi responsável
pela organização dos arquivos de Hélio Oiticica
para o Instituto Itaú Cultural, que pode ser acessado no
endereço www.itaucultural.org.br. Em 2004, foi curadora
da seção brasileira para o segmento “Up & Coming” da
feira internacional ARCO, sediada em Madri. Este ano, participa
do programa Rumos Visuais do Itaú Cultural como Curadora-coordenadora.
Publicou os livros Conversações com Iberê Camargo
(esgotado) e Leonilson. São Tantas as verdades (São
Paulo, DBA), entre vários artigos na imprensa especializada,
nacional e internacional.
A
Galeria Bergamin, iniciativa de Jones
Bergamin, tem como conceito realizar quatro exposições por ano, com curadores
convidados, para abordar temas de relevância que contribuam
para maior compreensão e divulgação da arte
brasileira. Ocupando um espaço privilegiado projetado por
Vilanova Artigas na região dos Jardins, a galeria, com esta
nova proposta, foi inaugurada em setembro de 2004, com a exposição
As Bienais, sob curadoria de Leonor Amarante, que reunia obras
de artistas de participação destacada nas Bienais
de São Paulo.