Assim como milhões de pessoas de várias gerações
em todo o mundo, sempre fui fascinado pelo musical "The Sound
of Music" estrelado por Julie Andrews em 1965. De tanto ouvir,
durante anos, os comentários entusiasmados de meus irmãos
sobre o filme, quando tive idade suficiente para assisti-lo, tive
a nítida impressão de já tê-lo assistido,
tamanho era o meu grau de ansiedade e intimidade com o filme.
Vendo
agora depois de tantos anos o making off, pude conhecer todo o trabalho,
aparentemente invisível, para que este filme pudesse
ser produzido. Confesso que mesmo sendo eu, um grande admirador do
filme, nunca havia pensado nele como uma grande produção
de Hollywood, o que significa, dificuldades iniciais na compra de
direitos autorais, estudos de pré-produção,
negociações intermináveis, escolha de elenco,
de locações, treinamentos, ensaios, criação
de roteiro, das músicas, dos figurinos, dificuldades com viagens,
dias de chuva, frio e todo um universo de acontecimentos reais, problemas,
soluções, encontros e desencontros que normalmente
acontecem e que não acostumamos imaginar existir quando apenas
acompanhamos um trabalho finalizado.
Comecei a pensar no trabalho
que temos no escritório de
design e acabei
fazendo uma analogia com a frustração que às
vezes sinto, e que acredito, todos os que trabalham com
criação também devem sentir, da grande dificuldade que as pessoas
têm em visualizar todo o processo criativo que a equipe responsável
por um determinado projeto trilha, cada vez que desenvolve um trabalho
de design, quando o vêem pronto.
A experiência que cada profissional adquire com o passar do
tempo, a vivência resultante de leituras, viagens e de muita
curiosidade sobre tudo, são ações pré-requisitas
para o sucesso na profissão. Além disso, são
realizados estudos e pesquisas de mercado, de público e da
concorrência, representando horas de trabalho para as resoluções
iniciais, geração das primeiras alternativas, escolhas
das alternativas, desenvolvimento de layouts, pesquisas de materiais,
de cores, de custo, de produção e muitas outras ações
que, às vezes, não ficam claramente explícitas
ao cliente em reuniões para a apresentação de
um orçamento estimado ou de um projeto solicitado. Felizmente,
com o tempo e através dos resultados obtidos, o cliente passa
a descobrir a importância de um trabalho bem-feito em design,
bem como todas as etapas necessárias desde sua concepção
inicial até o seu desenvolvimento e a sua implantação.
Guardadas
as respectivas proporções, qualquer trabalho
de design, assim como as grandes produções cinematográficas
e artísticas, necessita de ações que pessoas
leigas, incluindo a maioria dos clientes, não conseguem
visualizar e muito menos imaginar que existem.
Poucos sabem que o caminho
criativo é longo
e cheio de conquistas. Artistas como Picasso, por exemplo,
podem desenhar deformações cubistas, pois já provaram
a todos, que dominam o figurativo e o acadêmico, e assim conquistam
respeito pelo seu trabalho criativo. Da mesma forma, um designer,
ao apresentar uma solução ao cliente, que à primeira
vista, pode parecer simples e lógica, merece respeito, pois
na verdade, ele já experimentou antecipadamente, todas as
possíveis soluções do trabalho. Algumas complicadas,
outras exageradas ou inadequadas.
Um bom designer não é um super-herói, que tira
soluções fáceis da cartola. Ele também
não inventa a roda desnecessariamente todo o dia. Ele tem,
sim, a responsabilidade e a capacidade, para que, atendendo ao que
lhe foi solicitado, encontrar soluções criativas, econômicas
e viáveis para marcas, produtos e empresas.
Não tenho o objetivo de aumentar a importância do trabalho
de um designer, alegando que é tão difícil como
um dos 12 trabalhos de Hércules. Gostaria apenas de fazer
com que todos, e principalmente os clientes, conseguissem visualizar
e compreender, um pouco, como acontece o processo criativo. Eu sei
que não é fácil.
Falo por mim, que como espectador,
a vida toda pensei que Julie Andrews, para viver a alegre noviça
que passou a governanta e conquistou o capitão, bastou tirar
o hábito, colocar o avental e sair cantando pelos Alpes.
Luiz
Renato Roble é designer, consultor de Identidade Estratégica
e diretor de Criação da Datamaker Designers
criacao@datamaker.com.br